teatro e literatura

sobre dramaturgia,
encenação e literatura

Dialética do drama nas lições estéticas de Hegel (apontamento inédito, 2017)

            É comum nos ambientes teatrais a leitura subjetivista da poética dramática de Hegel. Sua obra, segundo essa interpretação, confirmaria a ideia moderna de que o drama é essencialmente uma forma de representação dialogada baseada no conflito das vontades individuais. As personagens dramáticas seriam assim sempre pensadas como sujeitos dotados de responsabilidade sobre seus atos […]

Nota sobre a peste e arte medieval ( 2020)

A peste que devastou a Europa no ano de 1348 gerou uma mudança nos padrões estéticos que foi avaliada por muitos historiadores do período como uma queda de nível da arte, na medida em que pintores e escultores, após a pandemia, se viram obrigados a servir aos interesses mais fúteis ou mórbidos dos senhores que […]

Conversa sobre processo colaborativo (2005)

Boa noite. Agradeço muito o convite da Ana e do Milaré para estar aqui. Minha fala será breve.  Todas as peças que escrevi até hoje foram baseadas no que se costuma chamar de processo colaborativo, aquele em que o material dramatúrgico, as personagens e até muitas relações ficcionais e estéticas surgem na sala de ensaio, […]

Uma pequena peça de Jorge Andrade (2013)

A beleza de O Mundo Composto vem do sentimento de injustiça que atravessa o pequeno ato: dois homens em cena, a percepção das vidas gastas no trabalho, a elaboração simbólica da própria experiência, no ponto em que a religiosidade camponesa se aproxima da consciência de classe.

Notas sobre Raymond Williams e o teatro (2013)

Raymond Williams, em mais de uma ocasião, afirmou que seu interesse pelo teatro surgiu na leitura das peças de Ibsen, ocorrida após sua experiência como combatente do exército na Segunda Guerra Mundial. Ibsen foi, no fim do século XIX, o dramaturgo mais influente entre os artistas que representaram a crise da sociedade burguesa no campo […]

Teatro de Gonçalves Dias: miséria rasteiras e arrebatadas (resenha, 2004)

Para que se entenda o trabalho teatral do poeta Gonçalves Dias (e sua possível validade atual) é preciso refletir sobre sua admiração por Friedrich Schiller, um modelo artístico recuado quase 50 anos do romantismo brasileiro. O classicismo alemão servia de bússola espiritual para uma resistência contra o apequenamento imposto por um ambiente hostil. Nele, Gonçalves […]

Ruggero Jacobbi e a modernização popular: posfácio a Teatro no Brasil (2012)

Por muito tempo de sua vida, Ruggero Jacobbi pensou que era “alguém de passagem, alguém provisório” no teatro. Vindo das letras, da estética filosófica, do interesse por cinema, ele demorou a se reconhecer no mundo das coxias, dos atores, e das expectativas do público. Mundo, de qualquer modo, sempre estranhável. Foi, entretanto, graças a essa […]

Notas sobre dramaturgia modernista e desumanização

Agir dá mais felicidade do que desfrutar.Os animais também desfrutam. O novo Menoza, Jacob Lenz A representação de processos de desumanização foi questão fundamental para algumas das mais importantes realizações do teatro moderno, tornando-se uma espécie de projeto central para os artistas que, na primeira metade do século XX, pensaram as relações entre forma dramatúrgica […]

Sobre Anatol Rosenfeld (palestra de 2007)

Boa noite. Quero agradecer a Biblioteca Mário de Andrade e o Instituto Goethe pelo convite para participar desse ciclo. Aceitei falar sobre Anatol Rosenfeld (1912-1973) porque tenho uma relação afetiva com sua obra. Não o conheci pessoalmente, mas de certo modo, tudo o que eu sei de teatro e literatura dialoga com os escritos de […]

Na homenagem a O Teatro Pós-dramático de Hans-Thies Lehmann (palestra, 2019)

É uma grande alegria estar aqui. Agradeço à gentileza de Hans-Thies Lehmann e da Akademie der Kunst. Minha fala será, em parte, sobre a recepção brasileira ao Teatro Pós-Dramático, e em parte, sobre minha relação pessoal com o livro. Isso talvez interesse porque fui o responsável por escrever o prefácio à tradução brasileira, publicada em […]

Encontro com Lauro César Muniz sobre dramaturgia (2011)

Encontro de trabalho (nos dias 16 e 17 de agosto de 2011) com Lauro César Muniz, no Estúdio da Companhia do Latão. Ele nos explica seus anos de aprendizagem com Augusto Boal, entre 1961 e 1962, quando tomou contato com o método de escrita que o Arena desenvolveu antes do golpe de estado.

O que você está lendo? (2009)

Diante da pergunta “o que você está lendo atualmente sobre teatro”, sou forçado à resposta de efeito: nada. Nas últimas semanas tenho me dedicado à leitura de vários escritos das obras completas de Freud sobre psicanálise e à leitura do livrinho A idéia de cultura, do crítico inglês Terry Eagleton. Como ponte simbólica entre os dois […]

A metafísica do “contemporâneo” em arte (2011)

Há mais de 30 anos, parte do teatro considerado experimental reproduz diversos padrões formais, numa espécie de cartilha gasta de recursos cênicos. Como justificativas ou legitimações desses estilemas, foram construídas diversas supostas teorias, quase todas elas amparadas na recusa pós-estruturalista à racionalidade. As teorias, na verdade arrazoados poéticos, variam nos termos chave (“paisagem de sonho”, […]

A superação do drama (2002)

Poucos livros são tão imprescindíveis para os estudos teatrais como “Teoria do Drama Moderno”, publicado em 1956, mesmo ano da morte de Bertolt Brecht. Seu critério de compreensão do modernismo é radical. Por isso tão mobilizador. Segundo Peter Szondi, a dramaturgia moderna não foi só aquela que encenou novos assuntos, num quadro de crise da […]

Uma cena de Kabuki (2008)

Assisti, numa apresentação especial para convidados, ocorrida em Berlin, a um ensaio de uma companhia japonesa de teatro Kabuki, comandada pelo ator Nakamura Kanzaburo XVIII.

Uma práxis da imaginação (resenha 2003)

Os anos de aprendizagem do Teatro de Arte de Moscou devem muito de seu brilho ao trabalho de Anton Tchekhov. A morte do escritor, em 1904, fecha o primeiro ciclo de formação da mais importante companhia russa de teatro moderno, surgida em 1898 do encontro de dois homens, o ator Konstantin Stanislávski e o dramaturgo […]

A superação da estética (2010)

A Estética do Oprimido é o último livro de Augusto Boal.  Num certo sentido, é uma re-escritura do nome de seu autor. Sua metáfora central parece estar num relato sobre os índios Pirahá, de Roraima. Segundo Boal, ao longo da vida eles mudam de nome porque acreditam que o avançar da idade os transforma em outras […]

Tchekhov conta Brasil (1998)

Anton Tchekhov, contista e dramaturgo russo morto em 1904, será um dos autores mais encenados neste ano no Brasil. São muitos os motivos que explicam o fenômeno.

Penúltima peça de Ibsen estreou há cem anos (1997)

A penúltima peça de Henrik Ibsen estreou em Paris, em 1897. Hoje um dos menos conhecidos entre seus dramas modernos, John Gabriel Borkman é lançado no Brasil com tradução direta do norueguês feita por Fátima Saadi e Karl Erik Schollhammer. O título dá seqüência à coleção Teatro da Editora 34 iniciada com O Pequeno Eyolf, […]

Valor de troca da imagem (debate sobre teatro pós-dramático, 2009)

Algumas das mais importantes experiências do teatro latino-americano nos anos 60 e 70 ocorreram no ambiente de grupos teatrais. Esses conjuntos do passado associaram criação coletiva e politização da pesquisa formal. Romperam com a especialização do trabalho artístico e atuaram nas fronteiras do mercado de artes.  Nas décadas seguintes, houve um relativo abandono desse projeto […]

A peça jamais encenada (resenha, 2000)

Em autobiografias, não é incomum que o esforço de demarcar o sentido geral da trajetória apareça tanto ou mais do que a matéria das experiências vividas. Como se os acasos e necessidades da vida, no ato da rememoração, ao serem expostos numa ordem de valores, acabassem por projetar também os desejos do escritor.

Política do Modernismo (resenha, 2012)

Por que parte do movimento artístico radical do século XX perdeu sua postura antiburguesa, virou ideologia e foi integrado confortavelmente ao novo capitalismo internacional? É essa a pergunta de fundo dos ensaios de Raymond Williams reunidos em Política do Modernismo. A incorporação mercantil do projeto das vanguardas é discutida em descrições complexas, baseadas na historicização das formas […]

A dialética de Ricardo II

Já se observou que a atitude crítica de Antonio Candido decorre de uma compreensão materialista da forma literária. Ao invés de separar o comentário histórico e a análise formal, de tratá-los como opostos, ele articula os dois campos, de modo a tornar legível na forma literária os seus “ritmos sociais preexistentes” [1]. Uma demonstração exemplar […]