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teatro e literatura

Ruggero Jacobbi e a modernização popular: posfácio a Teatro no Brasil (2012)

Por muito tempo de sua vida, Ruggero Jacobbi pensou que era “alguém de passagem, alguém provisório” no teatro. Vindo das letras, da estética filosófica, do interesse por cinema, ele demorou a se reconhecer no mundo das coxias, dos atores, e das expectativas do público. Mundo, de qualquer modo, sempre estranhável. Foi, entretanto, graças a essa atitude de inadaptação, no que ela tem de recusa às eternizações (tendência que atuava nele como uma qualidade distanciadora das coisas prontas), que Jacobbi contribuiu – talvez mais do que ninguém – para a radicalização crítica do moderno teatro brasileiro.

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diálogos das artes

Nélson Xavier, entre o circo e a melancolia (2017)

O encontro do jovem Nelson Xavier com os artistas do Teatro de Arena, no fim dos anos 1950, promoveu uma não-especialização que foi a marca de sua atitude de ator, a despeito de sua identificação posterior com figuras como Lampião ou Chico Xavier. Mas que outro ator poderia se orgulhar dessa associação a personagens tão emblemáticos das contradições do Brasil?

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teatro e literatura

Aspectos da forma dramática e breve comentário sobre teatro épico e pós-dramático (palestra, 2010)

Agradeço ao convite para abrir este evento que me parece tão importante, por se perguntar sobre os caminhos do trabalho de dramaturgia no Brasil na atualidade.  Coube-me a tarefa de uma apresentação panorâmica de alguns conceitos-chave com que o debate formal costuma se realizar, ainda hoje, neste campo: Drama, Teatro Épico e Teatro Pós-Dramático. Vou tratar, sobretudo, da dificuldade de se discutir o conceito de drama, e a partir daí projetar os outros temas.

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Latão e Brecht

Os escritos de Brecht sobre Stanislavski (2020)

            As visões teatrais do dramaturgo alemão Bertolt Brecht e do ator e encenador russo Constantin Stanislavski podem parecer opostas e mesmo inconciliáveis numa primeira leitura. Entretanto, suas obras transitaram por muitas possibilidades das artes cênicas e nunca foram um conjunto estável de gestos e ideias. Assim, ao contrário do que sugerem as vulgatas, que as apresentam como antípodas do modernismo cênico, é possível encontrar nessas obras vários interesses comuns, especialmente quando a concepção totalizante e móvel  de seus autores sobre o trabalho teatral surge à frente das diferenças ideológicas.

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In homage to the Post-dramatic theater of Hans-Thies Lehmann (2019)

It’s a great joy to be here. Thank you for the kindness of Hans-Thies Lehmann and Akademie der Künste. My speech will be, in part, about the Brazilian reception of the Post-Dramatic Theater, and in part, about my personal relationship with the book. This may be of interest because I was responsible for writing the preface to the Brazilian translation, published in 2007. And it is a contradictory and critical preface to a brilliant book, which I myself indicated for publication.

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crônicas e ficção

Decálogo de Cascudo para nortear a vida (1993)

Eu organizava esta semana os livros na estante, naquela tentativa inconsciente de colocar em ordem a própria alma (algum resquício da primitiva magia simpática), quando o acaso me fez deparar com uma pequena obra, perdida atrás da fileira de livros. Intitulada O livro das velhas figuras, foi-me presenteada há muitos anos pelas mãos do próprio autor, o grande literato e folclorista Luís da Câmara Cascudo. Recordo-me incerto da circunstância.

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teatro e literatura

Notas sobre dramaturgia modernista e desumanização

Agir dá mais felicidade do que desfrutar.
Os animais também desfrutam.

O novo Menoza, Jacob Lenz

A representação de processos de desumanização foi questão fundamental para algumas das mais importantes realizações do teatro moderno, tornando-se uma espécie de projeto central para os artistas que, na primeira metade do século XX, pensaram as relações entre forma dramatúrgica a sociedade contemporânea.

Pode-se dizer que o interesse teatral pelo homem que se desumaniza surge muito antes do momento das vanguardas históricas. Aparece de tempos em tempos na dramaturgia ocidental desde o advento dos teatros nacionais no Renascimento, como uma dimensão negativa do processo de expansão daquela concepção humanista que deu lugar, em cena, ao que foi uma conquista decisiva da racionalidade burguesa: a idéia de indíviduo moderno, o homem dotado de razão, capacidade de escolha, livre-arbítrio. É paradoxal que ao surgir na cena teatral dos séculos XVI e XVII, ainda como individualidade (mas já dotado da capacidade racional de tomar decisões potentes), essa imagem social do indivíduo que carrega a estrela do seu destino na testa  revele, no caso de alguns grandes autores como Shakespeare, o avesso do humanismo, isto é, a vocação do inumano. É o que se vê em MacbethLear, e mesmo Hamlet.

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Interview with Sérgio de Carvalho (2010)

Marcos Steuernagel – I’m here with Sérgio de Carvalho, director of the Companhia do Latão. We are in São Paulo, today is November 10, 2010, to discuss the work of Companhia do Latão and theatre and politics in Brazil. Could you start by describing what the Companhia do Latão is?

 Sérgio de Carvalho – The Companhia do Latão is a group of São Paulo artists working on dialectical theatre. When we began, in 1997, we used Brecht’s work as an outline for applying Marxism to aesthetics. However, due to the internal requirements of the method of contradictions that forms the basis of his dialectics, we explored new ways to critique relationships between representation and social life. With Brecht, you need to go beyond him. That is how we began a new approach to dialectical dramaturgy in Brazil, an approach that seeks to stage problems that are relevant to the current stage of capitalism, and to understand how worldwide dynamics influence the peripheral world and vice-versa.

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Latão e Brecht

A contribuição do teatro para a luta de classes: a experiência da Companhia do Latão (entrevista, 2008)

(Entrevista com Sérgio de Carvalho realizada por Iná Camargo Costa para a revista Crítica Marxista nº26, 2008, pg 168-174.)

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teatro e literatura

Sobre Anatol Rosenfeld (palestra de 2007)

Boa noite. Quero agradecer a Biblioteca Mário de Andrade e o Instituto Goethe pelo convite para participar desse ciclo. Aceitei falar sobre Anatol Rosenfeld (1912-1973) porque tenho uma relação afetiva com sua obra. Não o conheci pessoalmente, mas de certo modo, tudo o que eu sei de teatro e literatura dialoga com os escritos de Rosenfeld. Se a companhia de teatro que dirijo hoje se encaminhou para o lado do teatro épico, estudando a obra do Brecht como referência para um teatro crítico no Brasil, isso teve a ver com a leitura do trabalho do Anatol. Acho mesmo, por isso, que gostaria de tratá-lo aqui pelo primeiro nome.