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teatro e literatura

A peça jamais encenada (resenha, 2000)

Em autobiografias, não é incomum que o esforço de demarcar o sentido geral da trajetória apareça tanto ou mais do que a matéria das experiências vividas. Como se os acasos e necessidades da vida, no ato da rememoração, ao serem expostos numa ordem de valores, acabassem por projetar também os desejos do escritor.

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diálogos das artes

O direito ao teatro: debate sobre política cultural (2012)

Não há muita dúvida de que o teatro é o setor da vida cultural brasileira em que o engajamento na questão das “políticas culturais do Estado” se encontra mais avançado. Setores dos produtores independentes têm acompanhado de perto e tentado influenciar, através de cafezinhos, seminários e páginas nos jornais, a recente discussão sobre o Procultura, uma reforma da Lei Rouanet que pretende fortalecer as verbas diretas do Fundo de Cultura e controlar na medida do possível os diretores de marketing que hoje decidem sobre o patrocínio das artes com recursos de renúncia fiscal.

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diálogos das artes

O fim anunciado: a crítica de teatro vive os seus últimos dias

O processo de esvaziamento da crítica teatral na imprensa brasileira já dura mais de duas décadas. E esses que aí estão talvez constituam o nosso último grupo de críticos. Depois deles, ao menos na imprensa, será a morte da profissão. Fim inglório, para o qual eles próprios contribuíram. Sem críticos profissionais, no entanto, a crítica continuará a ser exercida nos jornais do lado de fora do discurso crítico. Bem longe do pensamento. Continuará a ser exercida na escolha editorial sobre quais artistas merecem uma reportagem. Na decisão sobre o tamanho da matéria supostamente isenta de opinião, que vai ou não sair na capa do caderno. Na escolha das fotos, ou ainda no roteiro da temporada que, cada vez mais seletivo, continuará com suas estrelinhas e aplausinhos de recomendação.

Com o fim do discurso crítico, não serão extintas as valorações. De manifestas, elas vão se tornar ocultas. Sem autoria. E, sem que se apresente o sujeito das opiniões não enunciadas como tal, não haverá o que debater. Não se discute com “escolhas técnicas”, assim como não se discute com “leis do mercado”. O juízo de valor será produzido de forma cada vez mais baixa, sem nenhuma raiz na argumentação. O valor de tal obra será lançado de cima, de insondáveis alturas, sem construção lógica no caminho da verdade, e sem desejo de, por meio do argumento, estabelecer uma relação crítica com o leitor.

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crônicas e ficção

Um intelectual no exílio (dos cadernos de Giácomo Soderini)

No desterro de San Casciano, Maquiavel, o proscrito, se acanalhava o dia todo no jogo de baralho. Sobre a mesa na taberna, freqüentada por um açougueiro, um moleiro e dois padeiros, contava os pontos das cartas de efígie perdida. E ao fim da jornada, embriagado após o passeio pelas ruas escuras, imobilizava-se diante da porta de seu quarto de estudos, despia-se da camisa comum e retirava da sacola panos curiais que vestia de modo mais ou menos solene, a fim de penetrar dignamente trajado em sua intimidade, na lembrança dos palácios principais, e ser recebido de modo cortês por si próprio. Na existência de San Casciano, Maquiavel praticava a amizade rude do moleiro, do açougueiro e de dois padeiros, e entrevia, no apagar da vela, formas modernas de adular o novo príncipe.

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teatro e literatura

Política do Modernismo (resenha, 2012)

Por que parte do movimento artístico radical do século XX perdeu sua postura antiburguesa, virou ideologia e foi integrado confortavelmente ao novo capitalismo internacional? É essa a pergunta de fundo dos ensaios de Raymond Williams reunidos em Política do Modernismo. A incorporação mercantil do projeto das vanguardas é discutida em descrições complexas, baseadas na historicização das formas e formações. Ele mostra que a neutralização da rebeldia (aquilo que converteu as imagens modernistas da desumanização em iconografia da publicidade) é também um risco que envolve o destino dos próprios Estudos Culturais, linha crítica que Williams ajudou a formar, sempre que a teoria se afasta do compromisso com a melhoria da vida.

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Latão e Brecht

Uma entrevista para o Hemispheric Institute

Marcos Steuernagel – Uma das questões interessantes do trabalho do Latão é essa idéia de usar o Brecht como um modelo, mas tentar construir uma espécie de teoria brasileira do Brecht, de entender como a teoria dele chega no Brasil. Você poderia falar sobre isso?

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Latão e Brecht

Três vinténs: sobre o trabalho com Brecht no Brasil

(a editora ulrike prinz, da revista alemã humboldt, me convidou a dar um breve depoimento sobre nosso trabalho com brecht no brasil. fez-me a seguinte pergunta: como se explica o êxito de autores alemães como müller e brecht no seu país? Como se vê pelo subtítulo abaixo, preferi responder à questão a partir de seu lugar de origem.)

Para entender por que a obra de Brecht vive no Brasil, é preciso pensar de que modo foi enterrada na Alemanha.

1. Brecht no Berliner Ensemble

Visito em 2007 as dependências do Berliner Ensemble. Estou em Berlim a convite da Casa Brecht, para uma conferência sobre o trabalho de meu grupo teatral em São Paulo, a Companhia do Latão. O dramaturgista do Berliner gentilmente me apresenta o teatro em que Brecht planejou um repertório de “demolição ideológica”. Ele me mostra um quadro de Helene Weigel ao lado de uma velha poltrona. “Era ela quem mandava aqui”, comenta. Seguem-se falas irônicas sobre a relação de Brecht com as mulheres, que poderiam constar do estúpido livro de John Fuegi The life and lies of Bertolt Brecht. Mais adiante, ao narrar a história do palco da Schiffbauerdamm, enfatiza que a Ópera de três vinténs (Die drei-groschenoper) foi “plagiada” de John Gay e escrita com intenções comerciais. Outros sorrisos. Todos seus comentários têm por alvo dessacralizar Brecht.

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teatro e literatura

A dialética de Ricardo II

Já se observou que a atitude crítica de Antonio Candido decorre de uma compreensão materialista da forma literária. Ao invés de separar o comentário histórico e a análise formal, de tratá-los como opostos, ele articula os dois campos, de modo a tornar legível na forma literária os seus “ritmos sociais preexistentes” [1].

Uma demonstração exemplar dessa técnica dialética de Antonio Candido se encontra na palestra A culpa dos reis: transgressão e mando no “Ricardo II”, escrita para integrar um ciclo de debates sobre Ética. [2] Sendo texto destinado ao ouvido do público, sobre assunto teatral, encontra-se ali um cuidado argumentativo que deixa visível a dimensão de uma pedagogia da crítica contida na maioria de seus ensaios.

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Latão e Brecht

Trabalho de Brecht, de José Antonio Pasta

Este é um livro extraordinário em muitos aspectos. Escrito originalmente como dissertação de mestrado em 1982 – por um estudante que se tornaria professor da Universidade de São Paulo – e lançado em 1986, ele de pronto assinalou o surgimento de um intelectual que desde já se situava entre os mais brilhantes do país, em sua área de estudos.

Excepcional também é que Trabalho de Brecht renove sua atualidade a cada dia. Isso se deve ao tratamento que dá à questão mais decisiva da poética de Brecht, a do método dialético, debate que apenas Walter Benjamin enfrentou com a mesma complexidade. Através da sondagem do movimento geral de contradições que animam a obra de Brecht, José Antonio Pasta postula a existência de uma “atitude clássica” praticada pelo artista que mais radicalmente reinventou o teatro moderno.