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Três vinténs: sobre o trabalho com Brecht no Brasil

(a editora ulrike prinz, da revista alemã humboldt, me convidou a dar um breve depoimento sobre nosso trabalho com brecht no brasil. fez-me a seguinte pergunta: como se explica o êxito de autores alemães como müller e brecht no seu país? Como se vê pelo subtítulo abaixo, preferi responder à questão a partir de seu lugar de origem.)

Para entender por que a obra de Brecht vive no Brasil, é preciso pensar de que modo foi enterrada na Alemanha.

1. Brecht no Berliner Ensemble

Visito em 2007 as dependências do Berliner Ensemble. Estou em Berlim a convite da Casa Brecht, para uma conferência sobre o trabalho de meu grupo teatral em São Paulo, a Companhia do Latão. O dramaturgista do Berliner gentilmente me apresenta o teatro em que Brecht planejou um repertório de “demolição ideológica”. Ele me mostra um quadro de Helene Weigel ao lado de uma velha poltrona. “Era ela quem mandava aqui”, comenta. Seguem-se falas irônicas sobre a relação de Brecht com as mulheres, que poderiam constar do estúpido livro de John Fuegi The life and lies of Bertolt Brecht. Mais adiante, ao narrar a história do palco da Schiffbauerdamm, enfatiza que a Ópera de três vinténs (Die drei-groschenoper) foi “plagiada” de John Gay e escrita com intenções comerciais. Outros sorrisos. Todos seus comentários têm por alvo dessacralizar Brecht.

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Trabalho de Brecht, de José Antonio Pasta

Este é um livro extraordinário em muitos aspectos. Escrito originalmente como dissertação de mestrado em 1982 – por um estudante que se tornaria professor da Universidade de São Paulo – e lançado em 1986, ele de pronto assinalou o surgimento de um intelectual que desde já se situava entre os mais brilhantes do país, em sua área de estudos.

Excepcional também é que Trabalho de Brecht renove sua atualidade a cada dia. Isso se deve ao tratamento que dá à questão mais decisiva da poética de Brecht, a do método dialético, debate que apenas Walter Benjamin enfrentou com a mesma complexidade. Através da sondagem do movimento geral de contradições que animam a obra de Brecht, José Antonio Pasta postula a existência de uma “atitude clássica” praticada pelo artista que mais radicalmente reinventou o teatro moderno.