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Latão e Brecht

Trabalho de Brecht, de José Antonio Pasta

Este é um livro extraordinário em muitos aspectos. Escrito originalmente como dissertação de mestrado em 1982 – por um estudante que se tornaria professor da Universidade de São Paulo – e lançado em 1986, ele de pronto assinalou o surgimento de um intelectual que desde já se situava entre os mais brilhantes do país, em sua área de estudos.

Excepcional também é que Trabalho de Brecht renove sua atualidade a cada dia. Isso se deve ao tratamento que dá à questão mais decisiva da poética de Brecht, a do método dialético, debate que apenas Walter Benjamin enfrentou com a mesma complexidade. Através da sondagem do movimento geral de contradições que animam a obra de Brecht, José Antonio Pasta postula a existência de uma “atitude clássica” praticada pelo artista que mais radicalmente reinventou o teatro moderno.

Para além do assunto em movimento, o livro incorpora a classicidade dialética de Brecht a sua própria fatura, ao investigar o fluxo problemático de um trabalho em que a disposição totalizante (e o interesse crítico pela transformabilidade das coisas) se reverte em ação intelectual combativa. O autor clássico, nessa perspectiva, é quem coletiviza seu trabalho, quem procura intervir na história. Assim, no avesso de uma “transmissão a vácuo” do legado brechtiano, e muito distante das fórmulas facilitadoras, Pasta interpreta um processo geral a partir de seus diversos gestus, aqueles momentos em que o rio do tempo “salta do leito”, em fluxos e refluxos que demonstram a interação produtiva entre o velho e o novo.

Em seu recurso radical à dialética, esta obra poderia ser comparada a um estudo posterior, O método Brecht, escrito por Fredric Jameson. Ambos discutem a possibilidade contemporânea de uma estética marxista. O crítico brasileiro, entretanto, põe no centro de sua análise a questão nacional. Este ângulo, que interessa sobretudo a um pensador da periferia do capitalismo, possibilita uma compreensão das relações entre arte e forma-mercadoria em termos muito atuais, na medida em que o sentido universalista do projeto é considerado na perspectiva da miséria local e real, contradição que o estudo de Jameson pode apenas indicar, jamais compreender.

Assim como Lukács encontrou no classicismo alemão do século XVIII um componente de renúncia e resignação política em relação à ausência de movimento revolucionário, a interpretação de Pasta mostra o deslocamento operado por Brecht diante de questão semelhante, quando se deparou com a “perda da imediatidade” decorrente do exílio de sua geração, do estrago no mundo do trabalho teatral e, sobretudo, de uma presença maciça da contrarrevolução associada ao crescimento da indústria cultural.

Ao estudar como Brecht foi capaz de converter a “falta de imediatidade” em gesto produtivo, José Antonio Pasta parecia buscar, naquele início da década de 1980, um modelo de ação intelectual em meios culturais hostis a qualquer contestação do ideário liberal-conservador. Assim como Anatol Rosenfeld lhe ensinou que o esforço clássico é sempre uma luta contra os “poderes noturnos”, este livro nos transmite um modelo de superação de uma impossibilidade que Brecht chamava de “grande desordem”. Talvez por isso sua primeira edição tenha inspirado o trabalho de alguns jovens grupos de teatro de São Paulo, entre os quais a Companhia do Latão, que deve sua origem à influência inventiva desta obra. Na contramão da totalização mercantil, este Trabalho de Brecht é o fragmento de uma obra intelectual marcada pelo amor à inteligência, pelo impulso da clarificação e por uma imensa vibração moral e política.

Texto publicado originalmente como orelha de Trabalho de Brecht: breve introdução ao estudo de uma classicidade contemporânea, segunda edição, São Paulo, Duas Cidades e Editora 34 , 2010.

Por Sérgio de Carvalho

Sérgio de Carvalho é dramaturgo e encenador da Companhia do Latão, grupo teatral de São Paulo, Brasil. É professor livre-docente na Universidade de São Paulo na área de dramaturgia.

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