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crônicas e ficção

Um intelectual no exílio (dos cadernos de Giácomo Soderini)

No desterro de San Casciano, Maquiavel, o proscrito, se acanalhava o dia todo no jogo de baralho. Sobre a mesa na taberna, freqüentada por um açougueiro, um moleiro e dois padeiros, contava os pontos das cartas de efígie perdida. E ao fim da jornada, embriagado após o passeio pelas ruas escuras, imobilizava-se diante da porta de seu quarto de estudos, despia-se da camisa comum e retirava da sacola panos curiais que vestia de modo mais ou menos solene, a fim de penetrar dignamente trajado em sua intimidade, na lembrança dos palácios principais, e ser recebido de modo cortês por si próprio. Na existência de San Casciano, Maquiavel praticava a amizade rude do moleiro, do açougueiro e de dois padeiros, e entrevia, no apagar da vela, formas modernas de adular o novo príncipe.

Simião, o sapateiro

(Um fragmento)

Na ágora de Atenas, ele produzia sandálias, consertava cadarços, conforme os jeitos dos pés e o desgaste das pedras. No tempo da Democracia dizia cobrar um preço justo. Era famoso não por essa impalpável medida, mas pela habilidade de modificar a matéria-prima conforme sua qualidade, conforme as necessidades que lhe fossem trazidas. Simão, o sapateiro, quando justiça se discutia, tinha para si saudades da Tirania, devido a algumas convicções íntimas que os homens acreditam serem políticas. Mas Simão, comerciante do próprio trabalho, notava no dorso dos dias, que os homens gastam mais suas solas no vai e vem escarpado da ágora democrática, nos desembarques dos portos, nas praças em gritaria. Simão conheceu Sócrates. Dele ouviu a palavra verdade (outros dizem filosofia) enquanto esticava o couro por meio de duas presilhas.

Divulguei inéditos do poeta italiano Giacomo Soderini nas edições 1 e 2 do jornal Traulito, da Companhia do Latão. Soderini é um poeta do século 18, de biografia obscura, oriundo de Pádua. Sabe-se que foi dos primeiros a escrever poemas sobre os trabalhadores. Esses trechos foram retirados de Epístolas a Helena, Padova, Oficina Dalforno, 1996. Tomei a liberdade de traduzir seus versos de ritmos irregulares em prosa.

Por Sérgio de Carvalho

Sérgio de Carvalho é dramaturgo e encenador da Companhia do Latão, grupo teatral de São Paulo, Brasil. É professor livre-docente na Universidade de São Paulo na área de dramaturgia.

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